Pandemia e seus riscos para saúde mental

O mundo se encontra há mais de quatro meses em uma luta diária contra o novo Corona vírus. A pandemia e seus riscos para saúde mental criou um cenário que mistura várias crises ao mesmo tempo: econômica, de saúde e social. E isso acaba resultando em uma crise ainda maior que é a humanitária.

Esse “adoecimento em massa” causado pela Covid-19 trouxe uma mudança drástica na rotina e no estilo de vida das pessoas em um curto espaço de tempo. O número crescente de mortes e a ameaça real de uma doença altamente transmissível tem causado um sofrimento mental na população.

Sofrimento mental

De acordo com as terapeutas integrativas Elaine Vidal Biancalana e Priscila Vidal Martins, o principal desencadeador desse sofrimento mental durante a pandemia é o medo. “Em geral, o medo é um sentimento muito negativo que adoece as pessoas. Gera o conflito do ‘não sei o que pode acontecer comigo’, há o medo do perigo desconhecido, ou incertezas de como será o futuro”, afirmam.

O isolamento social, apontado como uma medida de controle da Covid-19 também pode causar impactos na saúde mental. E segundo as terapeutas ele pode causar dois tipos de reações emocionais nas pessoas.  O primeiro seria o comportamento depressivo, que engloba aquelas pessoas que sofrem demasiadamente com o distanciamento social. “Essas pessoas não conseguem ficar sozinhas em suas casas, sentem a falta de contato como perdas territoriais, por isso se deprimem”, explicam.

O outro tipo de comportamento desencadeado pelo isolamento social é o maníaco. “Engloba as pessoas que entram em um padrão de pensamento obsessivo do tipo ‘se eu sair de casa eu vou morrer ou causar a morte dos outros’, essas pessoas aparentemente lidam melhor com o distanciamento social, mas por outro lado sofrem de uma angustia sem alivio”.

Estresse e conflitos mentais

Ainda segundo as terapeutas Elaine e Priscila, as pessoas apresentam mais dificuldades de manter o equilíbrio mental durante a pandemia. “Estamos tendo que lidar com vários tipos de estresses novos, nunca vividos antes”. Outro agravamento é a velocidade com que as pessoas têm recebido as informações sobre o Novo Corona vírus.

“Recebemos tanta informação com tal velocidade que não temos tempo de resolvê-los, então adoecemos. Conflitos emocionais precisam de tempo para ser resolvidos. Geralmente as pessoas não conseguem encontrar sozinhas a causa primária do seu sofrimento. Comunicar alguém alivia o sofrimento e traz cura também, por isso as técnicas terapêuticas se fazem cada vez mais necessárias”, orientam.

É importante identificar e entender o estresse pelo qual a pessoa está passando. Já que os sintomas são específicos. “Precisamos aprender a dar nome a tudo o que sentimos e dar nome aos conflitos”. Se a pessoa tem medo de perder alguém da família devido à doença, esse conflito tem que ser percebido, nomeado e tratado. “Medo de perder alguém é o estresse dessa pessoa. É preciso entender a quanto tempo ela vive esse conflito isoladamente sem comunicar isso a ninguém”, explicam.

Agravamento de outras doenças

A Universidade de Londres realizou recentemente uma pesquisa com mais de 3.500 pacientes hospitalizados por Covid, SARS e MERS.  Durante a pesquisa os especialistas verificaram que os internados têm risco de desenvolver em longo prazo problemas de saúde como ansiedade, transtorno depressivo, fadiga e TEPT.

Além de outros sintomas como memória comprometida, insônia, irritabilidade e lembrança frequente da memória traumática. Isso em um período de seis a 39 meses após a internação.

Segundo as terapeutas, se uma pessoa já sofre com depressão, por exemplo, ela precisa ser acolhida em sua história de vida para que a situação não piore devido o medo da Covid-19. “É preciso identificar o que essa pessoa viveu antes que não conseguiu superar. Se essa situação vivida ainda não foi ressignificada e a atual situação reativa esse primeiro trauma, ela pode piorar durante a pandemia”.

Crise de saúde mental pós-pandemia

Os males que a pandemia tem causado em diversos lugares do mundo vão além dos dias atuais. Os especialistas tem se preocupado também com uma futura crise de saúde mental pós-pandemia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já fez um alerta sobre o impacto que a doença tem causado na saúde mental da população e o quanto isso irá se agravar nos próximos meses. Principalmente entre as mulheres e os profissionais de saúde.

Homens e mulheres apresentam as mesmas condições psíquicas e biológicas para enfrentarem a pandemia. Entretanto, pensando por um aspecto socioeconômico, mulheres que são mães e ao mesmo tempo provedoras do lar, vivem uma situação dramática durante esses meses de pandemia.

Conflitos para as Mulheres

De acordo com as terapeutas, mulheres que vivem essa realidade podem se encontrar em uma situação de desamparo, ficando mais suscetíveis a sintomas físicos e emocionais, inclusive do próprio Covid-19. “Desamparo porque neste momento elas não podem contar com o apoio da escola, e nem mesmo de parentes próximos como os avós para auxiliar no cuidado com as crianças”, apontam.

Elas explicam que de forma geral, as mulheres são as que mais sofrem com o trabalho home-office, adotado por muitas empresas e profissionais atualmente. “Conciliar o trabalho doméstico e o profissional no mesmo ambiente pode gerar o seguinte conflito: ‘não conclui meu trabalho’ ou ‘o dia já acabou e eu não dei conta’”.

Para Elaine e Priscila este tipo de conflito acaba causando as insônias, pois o corpo entende que não pode se desligar enquanto ainda tiver serviço para fazer. Isso justifica o aumento do consumo de Rivotril e outros medicamentos para ansiedade e insônia.

Segundo dados do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), entre os meses de março e abril, a comercialização de Clonazepam (ou Rivotril) aumentou 22% se comparado com o mesmo período de 2019. Esse é um dos medicamentos ansiolíticos mais conhecidos e vendidos do país.

Profissionais de Saúde

O que mais tem impactado a saúde mental dos profissionais da área da saúde é o isolamento da família. Alguns desses trabalhadores que estão na linha de frente do enfrentamento da Covid-19 estão isolados da própria família desde o final de março. “Outro motivo que desestabiliza o profissional de saúde é o choque de presenciar a morte dos colegas de equipe. Nós podemos dizer que o peso emocional é o mesmo de um soldado em combate”, afirmam as terapeutas integrativas.

Ajuda profissional

“As pessoas ainda não se deram conta de que os remédios não trarão saúde mental. Os remédios servem para mascarar um sintoma”, explicam. Para as terapeutas, a medicação é importante para tirar os pacientes de uma crise. Porém em longo prazo o paciente que faz uso de medicações fica anestesiado e passa a enfrentar a vida sem lutar, sem sentir e sem reagir.

“Cabe a nós entendermos que o ser humano é um ser integral, corpo, mente e espírito. O corpo avisa quando algo está errado e esse aviso é o sintoma”. Se a pessoa tem um sintoma físico ou psíquico, é importante procurar ajuda profissional para entender qual é a origem traumática que traz determinado sintoma.

“Cuidar da saúde emocional não é besteira. Terapia não é para fracos, nem para loucos. Pelo contrário, cuidar da saúde emocional é cuidar da saúde física, porque elas são uma coisa só. Fazer terapia é para os corajosos, pessoas que buscam estar saudáveis e preparadas para a vida”, finalizam.

Em um cenário de medo e incertezas que a pandemia e suas nuances tem criado, cuidar da saúde mental, que já era importante, se torna agora emergencial.

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